sábado, 20 de outubro de 2007

Boiando na Rifaina

Só me lembro de Rifaina por causa de uma propaganda antiga que o Neil Ferreira e o Petit da DPZ fizeram para a TELESP, onde comemorava-se a última cidade do estado de São Paulo a ter telefone. Um silêncio de grilo, a luz estourada, um clima Sergio Leone. Velhinhos na praça, velhinhas na janela, uma pan enorme, um som de telefone, close, corta, um senhor atende- alô, aqui é de Rifaina, sotaque carregado. Locutor Off.

Eu não era publicitário ainda, estava começando a faculdade acho. Mas a prova de que a profissão sempre esteve na veia é exatamente esta e muitas outras lembranças publicitárias ao longo da minha vida inteira.

Neste fim-de-semana, amigos nos convidaram para passear em Rifaina e a moeda de troca e ou as armas da persuasão foram: tem lancha, e dois jets. Eu na verdade não gosto disso, coisas que todo mundo gosta, sol, água, verão, esquiar, “jetesquiar”, "lanchar" estas coisas. Mas temos filhos adolescentes e reunir a família com estes seres é muito difícil, mas se tem lancha, jet ski, sol, verão e muita água, quem sabe.

Eu não gosto de lanchas como hobby, gosto como meio de transporte, desde que ela me leve a um lugar, sabe, uma viagem, ou seja, vamos num bar à beira mar! vamos por uma trilha a pé naquela praia e lá a gente pega um lancha de volta pois será mais rápido!

Veículo de transporte para mim é pra transportar. Imagine eu falar assim, vamos no final de semana para Osasco galera, meu tio tem um caminhão. Chegando lá toda a “tchurma” dando roles pela city. Ou ainda: seguinte moçada, fim-de-semana em São João del Rey, tenho uma litorina e a gente vai ficar passeando pela estrada de ferro.

Mas lá estava eu na lancha, parado no meio de uma represa, mais de 30 metros de água para baixo, porque eu tenho que pular nesta água fria, para ficar boiando, batendo os pés, tremendo o queixo, as mãos controlando o equilíbrio e que assunto teremos?

Não eu não gosto disso, e eu sou normal, por que ninguém entende? Todos me acharam esquisito. Eu preferia juro estar naquela hora lá naquela casa bacana, tomando um bom moscatel lendo minha Piauí e todos também, cada um com sua leitura discutindo aquilo, uma bossa nova lounge no fundo. Imaginei a cena agora, estariam todos boiando, literalmente. Se alguém não quisesse participar eu não ia achar o cara esquisito, mas e eu? Sou esquisto?

Gosto da natureza como complemento não como prato principal. Gosto da natureza como meio não como fim. Gosto de Rifaina por que me lembrou a DPZ dos anos 70 e eu não vim pra esta vida pra ficar boiando, afinal aqui é de Rifaina e tem até internet rápida.

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